A ORIGEM 


 

É impossível separar a história da Vila dos Remédios da de sua igreja. Desde o início de seu povoamento –quando então o local era conhecido como Sítio dos Remédios, devido à variedade de ervas medicinais encontradas em suas matas — as duas histórias caminharam de mãos dadas, muitas vezes confundindo-se.

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A antiga Casa Paroquial, hoje sede da Creche Padre Guerino (foto de 1965).

A fundação da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, confunde-se com a historia da origem do bairro, mas é certo que a evolução da Vila dos Remédios, é resultado dos trabalhos realizados pelos padres junto com a comunidade.

Desde o ínicio do povoamento do bairro – documento datam de 1854 – já existia no local a Irmandade da Imaculada Conceição do Sítio dos Remédios. O nome surgiu devido à variedade de ervas medicinais encontradas em suas matas. Na época o vilarejo, muito pobre, era formado por algumas chácaras e pequenas casas habitadas por portugueses e italianos e seus descendentes.

Em 1862, estes moradores ergueram uma pequena igreja, onde hoje se encontra a atual Praça da Matriz. Este terreno pertencia à família Airosa, bastante conhecida no bairro e proprietária de grandes áreas. O Sítio dos Remédios era uma fazenda de propriedade desta família. As proprietárias eram três irmãs. Duas delas se casaram e a solteira deixou sua parte para a Irmandade Nossa Senhora dos Remédios. Nos documento da época, aparece o nome da benfeitora “Senhorinha”, como era conhecida.

Anos depois, um dos membros da família, Antônio Airosa, advogado famoso no bairro, antes de falecer, deixou em testamento a doação de um grande terreno para as irmãs da Congregação Divina Providencia. Constava neste testamento uma cláusula que obrigava, no prazo de um ano, a construção de um orfanato para as crianças do bairro, como patrimônio da entidade. O Orfanato São Domingos foi construído e até hoje mantem-se sob a responsabilidade das irmãs, com o nome de Educandário São Domingos. Nesse mesmo terreno havia um grande bosque que, muitos anos depois, foi tombado pela Prefeitura de São Paulo, transformando-se no Parque Ecológico dos Remédios, uma extensa área verde e de lazer para a população do bairro.
Nesta época o bairro era distante dos centros de São Paulo e Osasco, cortado pelo rio Tietê, o que dificultava o acesso dos moradores para outras regiões e também não atraía nenhum padre para o bairro. O transporte só era feito através de balsa e de uma ponte de tambores que fazia a ligação. Quem tomava conta da Igreja era um morador chamado Joaquim Dias de Oliveira, conhecido como Joaquim Capelão que rezava o terço ajudado pela sua filha Eugênia da Conceição e uma senhora chamada Chance. Mas, sem padre não havia missas.
Um grupo de moradores formado pelos senhores Silvestre, Pepino, Nico, Carmino, Euclides, Cândido, Delfim, Batista, Rafael, Miguel e Orlando começou a trabalhar para trazer um padre. Este grupo criou uma entidade denominada Irmandade da Santa Imaculada Conceição em fins do ano de 1946 e empreendeu esforços junto à Cúria Metropolitana de São Paulo para trazer um padre para a Igreja dos Remédios. Eles se reuniram no porão da casa paroquial que era na verdade um abrigo de cabras. Conseguiram que um padre da vila Leopoldina, o padre Raimundo Soverano, viesse uma vez por mês rezar a missa, mas por causa dos problemas com transporte a vinda dele era irregular. Quatro anos depois chegou o primeiro padre.

Em 1953, a Paroquia Nossa Senhora dos Remédios compreendia um território paroquial muito extenso abrangendo a Vila Jaguára, Vila Piauí, Vila Mangalot, Vila São José e Parque São Domingos. Eram as chamadas capelas, distantes uma das outras e de difícil acesso.

Em 1960 o cardeal arcebispo de São Paulo. D. Agnello Rossi, dividiu o território paroquial já bastante desenvolvido nessa época e criou cinco novas paroquias: Vila São José, Vila Jaguara, Vila Mangalot, Vila Piauí e Parque São Domingos. Cada uma delas já tinha, como conseqüência do trabalho dos padres Lateranenses e do apoio da comunidade, a sua igreja levantada sob orientação da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, e realizando muitas melhorias para cada um dos bairros.

O INICIO DA GRANDE OBRA


O padre Domingos Tonini, que já havia trabalhado por seis anos no Rio Grande do Sul, lembrava que chegou a Vila dos Remédios junto com o padre Guerino Ricciotti, depois de uma visita a Gênova, na Itália, sua terra natal. Seus superiores na Cúria indicaram duas paróquias. Diadema e Vila dos Remédios. A escolhida, Vila dos Remédios era pobre, mas eles acharam melhor localizada. A casa Paroquial era pequena. Só havia um quarto com uma única cama. Por isso o padre Guerino, ficou hospedado na Igreja da Lapa e outro padre leigo, Irmão João Augusto Becker, Alemão, ficou provisoriamente no Colégio dos Padres Salesianos. Apesar das dificuldades, a primeira missa rezada pelo novo vigário, padre Domingos, aconteceu no dia ll de Outubro de 1.953.

Alcides da Conceição posa para foto em cima da parede da “igrejinha”, demolida em 1967.

A partir daí, os padres começaram a trabalhar. De inicio, muito ajudou um presente que ele e o padre Guerino haviam trazido da Itália. Duas harmônicas que criaram uma certa confusão na alfândega brasileira, mas que depois se transformaram com sua venda no carro da igreja, um Ford 1936 que durou 10 anos, uma geladeira e um televisor. Como foi a primeira televisão a entrar no bairro, à noite a casa paroquial ficava cheia de gente para assistir os programas, lembrava o padre o Domingos.

Foi com a ajuda dos moradores e a realização de quermesses, que os padres puderam ampliar as instalações da Casa Paroquial e o padre Guerino passou a morar lá também. Foi nessa época que começou a funcionar a primeira escola primaria do bairro, com a construção de uma sala de aula ao lado da garagem. Antes, com o esforço e a persistência dos moradores, foram erguidos dois galpões que funcionavam como escola, mas que eram insuficientes para atender numerosas crianças do bairro. Um ficava onde é hoje o Real Madrid Club e outro galpão ficava enfrente a Igreja atual. Já eram os idos de 1957, aproximadamente, e a criança não tinha escola, com o trabalho voluntário da professora Terezinha Bagon, que lecionou quase 3 anos sem receber nenhuma remuneração da Prefeitura, 20 crianças começaram a ser alfabetizadas na escola primária da Igreja.

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A bênção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Embora, sem a escola ser reconhecida pela Prefeitura, mas havia ainda muitas crianças sem aulas, e a igreja se sentiu responsável pela educação delas. Em pouco tempo, a escola chegou a contar com 800 crianças. Dois anos depois, o Governador Carvalho Pinto autorizou a construção de grupos escolares e aí surgiram Grupo Escolar Aparecida Ivone, Maria Augusta Siqueira e mais dois outros dois na Vila Jaguara e São José.
A primeira “sede” da escola, na casa paroquial, se transformaria, mais tarde na Creche Nossa Senhora dos Remédios.
Os padres foram transferidos para uma nova residência. Quando foi demolida a casa paroquial, foi construída a atual Creche Padre Guerino Ricciotti incansável animador das obras sociais e falecido, prematuramente, em 1978. A creche tem hoje, capacidade para atender 300 crianças do bairro.
A missão dos padres lateranenses, além de religiosa no sentido de preparar e formar padres brasileiros assim como evangelizar a comunidade tinha também um cunho assistencial e, até por força das circunstâncias, acabou tendo uma característica predominante pedagógica e educativa.
Naquele tempo, um decreto-lei do então governador Jânio Quadros obrigava as empresas a manter salas de aula para alfabetização dos filhos dos funcionários ou pagar uma quantia ao governo ou, ainda, efetuar convênios com escolas particulares. Era o chamado “salário educação” da época. Várias empresas da região procuraram os padres dispondo-se a subsidiar a escola administrada pela igreja. Mas, dava vergonha de uma escola instalada em uma garagem, e começaram a pensar em construir uma escola de verdade. Com a pressão do governo e a ajuda dos empresários foi construída a primeira escola do bairro, hoje o Colégio Nossa Senhora dos Remédios. No caminho, houve muitos contratempos. A renúncia de Jânio fez com que as indústrias desistissem da idéia de construir o colégio. Mas, com a vigência da lei, elas voltaram atrás e acabaram subsidiando as obras de construção. Em quatro meses, 20 salas de aulas estavam prontas para iniciar a alfabetização das crianças.
Oficialmente, o Colégio Nossa Senhora dos Remédios começou a funcionar em 1962. No início era gratuito e, mais tarde, passou a cobrar mensalidades de seus alunos, pois a Igreja já não tinha como cobrir as despesas de administração da escola.
Paralelamente as atividades da Igreja na formação e educação das crianças, o trabalho dos padres com a comunidade crescia cada vez mais. No aspecto religioso, o bairro passou a girar em torno da pequena igrejinha na praça matriz. Além das missas, que tinham que ser rezadas com alto-falante, nas laterais, porque a capela ficava lotada e a multidão se aglomerava na praça. Muitas procissões e quermesses eram realizadas com o apoio fundamental de pessoas que formaram a Congregação Mariana e que chegou a somar 120 pessoas em menos de 4 anos e estavam sempre prontos para planejar, organizar e trabalhar em todos os projetos. A integração com a comunidade se fortaleceu ainda mais com o surgimento de outros grupos como o de Oração, Apostolado, Filhas de Maria, Vicentinos, entre outros.

A participação dos moradores era intensa na época. Em 1955, por exemplo, foi realizada uma cerimônia de crisma que reuniu mais de 1.200 pessoas de todas as idades, de crianças a jovens, adultos e velhos. Naquele tempo, a crisma podia ser dada em qualquer idade e não era limitada aos 14 anos como hoje. O bispo Dom Paulo Rolim Loureiro, que veio “conferir a crisma” ficou impressionado com o número enorme de pessoas, lembrava o falecido padre Domingos Tonini.

A CONSTRUÇÃO DA IGREJA NOVA


 

Duas fases da construção da nova igreja, que iniciou-se em 1956, estendendo-se até 17/09/1972…

Foi por volta de 1958, que começaram os projetos para a construção de uma nova igreja que pudesse abrigar todos os fiéis do bairro. Depois de uma longa negociação com a família Airosa, foi adquirido um terreno de cinco mil metros quadrados. Em 9 de fevereiro deste mesmo ano, na presença do Bispo Dom Paulo Rolim Loureiro e do governador Adhemar de Barros, foi lançada a pedra fundamental da nova igreja.
A arrecadação de fundos para a construção teve a participação importante da Irmandade Nossa Senhora dos Remédios. Foi lançada uma campanha em que cada família doaria o equivalente á um metro de terreno, essas doações somadas aos recursos da igreja, possibilitaram a compra do terreno, onde hoje está erguida a Paróquia e o Colégio Nossa Senhora dos Remédios.
Inúmeras atividades foram criadas para arrecadar o dinheiro necessário. A mais memorável e que reunia o maior números de pessoas, a quermesse, era realizada com muita freqüência naquela época. Segundo os moradores mais antigos do bairro, parecia uma quermesse do interior, centenas de pessoas participavam dos leilões de cabras, porcos, galinhas, etc., havia finais de semanas em que eram arrecadados até oito contos de réis, uma soma espantosa para a época.
Outra atividade era a campanha do ferro-velho e das garrafas vazias. Esses materiais eram recolhidos nas casas dosDuas fases da construção da nova igreja, que iniciou-se em 1956, estendendo-se até 17/09/1972... moradores e repassados para empresas do ramo, gerando recursos para a compra dos materiais de construção, adquiridos no depósito do Romano, que funcionava num barracão de madeira e que chegou a ser uma das maiores empresas instaladas na Vila dos Remédios e também, uma das maiores casas no ramo de materiais para construção do país.
Segundo um dos moradores mais antigos do bairro Orlando Rizzato, foram feitas várias campanhas como: as das vigas, colunas, pisos e bancos. Na campanha do ferro, aconteceu um incidente: todo o dinheiro da quermesse foi roubado durante a noite. Mas , aí graças ao esforço e a simpatia que o Padre Guerino tinha com os donos das indústrias da região, conseguimos uma doação da Mapri que enviou muito ferro para a construção da igreja.
O projeto foi assinado pelo arquiteto José Vicari que junto com o engenheiro Francisco Trigo e o mestre de obras Basílio, tocaram a grande obra inspirada na arquitetura da Basílica de São João de Latrão, em Roma.
Por volta de 1968, a nova igreja recebeu sua benção. As obras ainda não haviam terminado, mas as instalações já permitiam a realização de missas, batizados e crismas. Foi então decidida à demolição da igreja velha, o que aconteceu em 1967. Cinco anos depois, no dia 17 de setembro de 1972, a nova Igreja foi solenemente consagrada recebendo a benção do Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

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